Crime e Castigo

"Para a pergunta sobre o que especificamente o motivara a reconhecer a culpa, respondeu francamente que fora o arrependimento sincero..." (Fiodor Dostoievski - Crime e Castigo)
 
O pequeno trecho acima é de um livro que considero uma obra-prima da literatura e conta a história de um jovem (Raskolnikov) que em um momento da vida de total privação comete um assassinato e passa a conviver com a perseguição de sua culpa.
 
Ouço muitas pessoas dizerem a seguinte frase-"Não me arrependo de nada de que fiz na vida!"-Andei pensando sobre o quão esta frase é estúpida e porque não prepotente. Ora, se o ser humano por conceito é um ser "imperfeito", dizer que não se arrepende de nada na vida é bradar aos quatro ventos que você nunca errou. Será mesmo?
 
A grande dificuldade do ser humano ( e evidentemente apesar de não parecer humano em todos os sentidos incluo-me nesta crítica) é a de reconhecer os seus próprios erros e consequentemente avaliar quais as motivações que o levaram ao lapso. Entretanto, quando reconhece-se a culpa o ser humano passa para um processo que vai desde uma tentativa desesperada em reparar a cagada até a total depressão motivada pelo erro.
 
Talvez o grande castigo da pessoa que comete algum erro seja a culpa e o remorso que o acompanha como uma sombra durante todos os dias, livrar-se disto é como tentar remover uma tatuagem com perfeição ou costurar um furo na camiseta. Mesmo que obtenha o perdão, seja o seu próprio seja da vítima que sofreu o mal, a culpa voltará de tempos em tempos para visitá-lo e virá sempre com seu punhal afiado onde na ponta lê-se "E se?".
 
A pergunta do hipotético bate várias vezes após o erro e é difícil não se incomodar com ela. Evidentemente na sociedade onde o individualismo impera, o reconhecimento da culpa própria pode ficar em segundo plano, afinal, na era do "Cada um com os seus problemas" fazer uma reflexão mais profunda sobre os malefícios que você pode ter cometido para alguém ou para si mesmo é um exercício pouco praticado.
 
Alguns dirão que é uma estupidez ficar remoendo coisas do passado e sofrer com o que já não tem mais jeito, entretanto, concordo com esta afirmação mas pondero que o caráter formado de cada um de nós mais cedo ou mais tarde nos cobrará a respeito dos erros que cometemos. As sociedades, as comunidades e as pessoas possuem diversos tipos de condutas morais, que de uma forma ou de outra são responsáveis pela imputação de culpa. Se a pessoa tem consciência de que está fazendo algo errado, só vai se arrepender em sua plenitude quando o mal se apresentar para todos.
 
Apesar de todos os esforços, sou uma pessoa que durante minha existência cometeu muitos erros, comigo e com os outros, nos erros que cometi pedi desculpas, alguns perdoaram-me outros ainda tem mágoa, mas posso garantir que independente do perdão, minhas culpas são sentenças que carregarei para sempre. Minha luta é apenas para que minha "ficha-criminal-pessoal" não aumente.


Escrito por oaraujo às 15h44
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